quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

POEMA ANTIESPORTIVO

E foi tudo pra nada:
O passe recebido
O drible aplaudido
A zaga deslocada.

E foi tudo pra nada:
O pique empreendido
O guardião batido
A meta escancarada.

E foi tudo pra nada:
O chute esfusiante
A rede de barbante
Com a bola encaçapada.

E foi tudo pra nada:
O urro, o murro ao vento
A façanha do tento
A torcida ouriçada.

E foi tudo pra nada:
O heróico gol de placa
Se o teu time, ó panaca
É o pior da temporada.

domingo, 21 de dezembro de 2008

VAN GOGH

Van Gogh, pintor holandês
Desconcertado, uma vez
Teve uma bem estrambótica
Idéia -  a ver com a óptica
Confusa na qual se via
Uma carcaça sem valia.
Então, insano pensar!
Decidiu ele amputar
Uma das orelhas suas.
(E pinçou uma das duas
Para passar o cutelo.)
Depois, achando-se belo
Pintou um auto-retrato
Na verdade, um caricato
A que faltava algo vivo:
O pavilhão auditivo
Que ficou com a sina torta
De ser... natureza-morta.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O "SONHO" DA MEZALÂNDIA

A Geometria nos fala de um cone de revolução, um sólido que é produzido pela rotação de um triângulo retângulo em redor de um dos lados do ângulo reto. E a Ciência Política nos ensina que a América Latina, em sua parte meridional, também tem o seu cone de revolução (ou de revoluções, já que são tantas, meu Deus).
Pois bem, está aí a Mezalândia que não me deixa mentir. Que está de gobierno novo, e cujo presidente acaba de anunciar que "o país vai entrar firme no mercado externo".
- Pode-se saber... com qual produto?
- Com o de sempre, o "sonho".
- Fazendo propaganda para incrementar a venda, imagino.
- Não, é o contrário. Aqui o segredo é a alma do negócio.
- E quem vai garantir uma operação comercial nessa condição?
- O General-Presidente, claro. Quem pode o mais, pode o menos.
- Está se referindo à revolução que ele fez?
- Que ele fez, com o respaldo popular. Pois antes ele ouviu seus parceiros de bridge, seu ajudante-de-ordens e sua esposa. Depois, pensou longamente por uns dois minutos e, abençoado pela nossa padroeira Santa Rita de la Cochabamba, só então decidiu.
- A seguir, em seu discurso de posse, ele calou fundo na alma do povo ao denunciar "os grandes males nacionais".
- Foi engano. Ele leu, por distração, a carta-renúncia do presidente deposto.
- Bem, voltando ao assunto do início, o "sonho". Ouvi dizer que toda a sua produção já está apalavrada com os compradores do exterior.
- É verdade. Não há "sonho" por aqui que já não esteja transformado em pasta, sua forma de exportação.
- A propósito, você fez me lembrar de que não temos a figura do ministro sem pasta.
- Lógico. Todos eles, o General-Presidente e seus ministros, estão perfeitamente sintonizados com o modelo da nossa 205ª revolução.
- Agora, uma pergunta final. Como vai ficar o consumo interno desse produto?
- Não se aflija. Teremos pesadelo de sobra nos próximos anos.

ZÉ BRASIL (ESQUETE)

O pano é aberto.
Mostra um cenário "hollywoodiano" - apenas no calendário da parede (merchandising da Souza Cruz). É o interior de um humilde barracão, pois.
Há a movimentação de dois personagens. Um, que atende pelo nome de Zé Brasil (em verdade, este pouco se movimenta; limita-se a dar gemidos pungentes numa cama), e outro, que representa a sua esposa, D. Esperança.
Alguém sopra dos bastidores:

Começa, ô panaca!
ZÉ BRASIL
Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, oi.
(Esta última interjeição não foi um gemido e sim uma saudação que ele endereçou a um terceiro personagem que penetrou no recinto.)
O novo figurante faz o médico. É um tipo gorducho, de óculos, que lembra o Dr. Sardinha da televisão, que lembra o... Bom, deixa pra lá.
(Na sua direção, aflita, corre D. Esperança.)
D. ESPERANÇA
Dr. Golfinho, meu esposo agoniza.
DR. GOLFINHO (pegando o pulso do paciente)
Calmaí... Quando começou a doença dele?
D. ESPERANÇA
Tem andado doente há alguns anos. Nos últimos tempos, esteve sob os cuidados de Dr. Henrique Simão que o proibiu de beber. Mas, ontem, após receber o seu mês de INPS, gastou o dinheiro todo na cachaça.
DR. GOLFINHO
Hum... deixe-me ver... Deve ter bebido meio litro de aguardente.
D. ESPERANÇA
Por aí, doutor. Então, quando acordou da bebedeira, elezinho falou de uma dor no umbigo e se pôs a gemer.
Dr. Golfinho passa a examinar o abdome do enfermo. Nesse ínterim, o contra-regra entra no palco para retirar um samovar - utensílio russo que não se coaduna com a ambientação da peça. E, concluída a apalpação diagnóstica, abre a sua maleta para pegar um frasco de remédio. O que faz com um sorriso de satisfação: sorriso gordo, com os dois queixos de gordo.
DR. GOLFINHO (mostrando "eucaristicamente" o frasquinho)
Pronto, minha senhora.
D. ESPERANÇA (esperançosa)
O remédio age logo?
DR. GOLFINHO
Antes de lhe dar a resposta, me dê uma informação. Vocês têm filhos?
D. ESPERANÇA
Netos também, doutor.
DR. GOLFINHO
Ótimo! E agora lhe respondo... que o medicamento tem ação imediata. Mas, antes de ministrá-lo, a senhora tem que agitar o frasco por uns quarenta anos. Comece agora. Vai servir para o Zé Brasil Neto.
Vendo o público enfurecido, Dr. Golfinho retira-se apressadamente. Nada tem de heróico o mezinheiro.
Cai, por enquanto, o pano.

(escrito em 1980, revisado em 2008)

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

ARRAIAS, PAQUETÕES E BOLACHINHAS

O mês em curso me faz lembrar os julhos da minha infância. Quando o céu de Fortaleza ficava povoado de vistosas arraias fazendo as suas belas evoluções aéreas. Um fenômeno explicado pelas férias escolares que incidiam, ontem como hoje, num mês de muitos ventos.
As arraias (ou "raias" como pronunciavam os moleques), as quais, em outras partes do Brasil, seriam chamadas de pipas, pandorgas ou papagaios.
Para a confecção de uma delas, não se necessitava de muita coisa. Palitos secos de coqueiro, linha, papel-seda e um pouco de grude. Com os palitos secos, em número de três, amarrados nos cruzamentos por pedaços de linha (e com um destes pedaços utilizado para delimitar o perímetro) fazia-se o esqueleto da arraia. A seguir, nesta armação se colavam os retalhos do papel-seda por meio de um grude preparado na cozinha de casa.
Os complementos do brinquedo eram o cabresto e o rabo da arraia. Para o cabresto, que servia para prender a arraia, bastava um pequeno pedaço de linha. E, para o rabo da arraia, além de uma maior porção de linha, à qual se atavam pequenas tiras de pano (molambo era o ideal), a intervalos regulares, ficando uma tira maior, a ponteira, para ser colocada no final da linha. O rabo (ou rabiola) era então preso na extremidade da arraia para lhe conferir estabilidade. Sem ele, ao ser posta no ar, a arraia ficaria a girar loucamente e sem ganhar altura.
Havia uma versão gigante da arraia, o paquetão, cujo esqueleto era feito de taboca. O qual era colocado no ar apenas por quem tinha a robustez suficiente para controlá-lo. E existiam também as bolachinhas, umas imitações baratas das arraias, que serviam de divertimento para as crianças menores. Feitas de algum papel grosso, cortado na forma redonda, e a seguir perfurado por palitos de coqueiro que funcionavam como armação, eram feias e não ganhavam grande altura.
Empinava-se a arraia com a ajuda de um companheiro que a elevava bem acima da cabeça. Até que, a um sopro mais forte do vento, a arraia era largada enquanto o outro a puxava. O outro era o dono da arraia que, muitas vezes, tinha de correr contra o vento para que ela subisse. Não havendo o auxílio de um companheiro para empiná-la, a alternativa era o "soltador" de arraia se posicionar num local elevado como um muro ou o terraço de casa.
E a arraia subia em movimentos coleantes sob o incentivo de repetidos puxões aplicados em sua linha. Com esta, a cada instante, sendo liberada de um carretel que rolava entre os dedos do "soltador". Até que a arraia se encontrasse na altura desejada (ou a linha chegasse ao fim). Neste ponto, começava o bonito espetáculo da arraia a movimentar-se no espaço em resposta aos "lanceios" feitos no chão.
Uns contentavam-se com esse aspecto "pacífico" da brincadeira. Outros, porém, preferiam praticar o "corte" de arraias. Uma peleja entre arraias em que, ao cruzamento das linhas, uma delas (às vezes, ambas) sofria o "corte". E, ficando sem o controle da linha que a prendia, passava a ser arrastada pelo vento até terminar enganchada num fio elétrico, árvore ou telhado. Sendo, nessa "agonia", acompanhada pelos moleques em louca correria como se fora um troféu.
A muitos frustrava a arraia "cortada" ser também "aparada". Quando essa arraia "derrotada" não caía em domínio público, por haver sido em pleno ar capturada e recolhida pela arraia "vencedora", graças à habilidade do dono desta.
Não seria possível o "corte" de arraias sem a participação do cerol. Preparado com vidro moído e cola derretida, assim que secava na linha em que era aplicado, o cerol a transformava num instrumento verdadeiramente cortante. Capaz de causar acidentes nos brincantes e em terceiros, aliás, como acontece até hoje. E, o que é pior, com alguns destes acidentes a se mostrarem terrivelmente letais.

Publicada em 21 de julho de 2008 no EntreMentes.

ACHADO CASUAL

Antologia de prosa e poesia publicada em 2008 por SOBRAMES, Regional do Ceará.
Autores: Airton Marinho, Antero Coelho Neto, Celina Corte Pinheiro, Chico Passeata (Francisco Monteiro), Christiane Chaves Leite, Dalgimar Beserra de Menezes, Eilson Goes (15/06/1941 - 18/10/2008), Fernando Siqueira Pinheiro, Flávio Leitão, Francisco Tomaz Ramos, Ilnah Soares, Jesus Irajacy Costa, José Maria Bonfim, José Maria Chaves, José Wilson de Sousa, Luciano Arruda, Luciano Sidney, Luiz Moura, Marcelo Gurgel, Martinho Rodrigues, Nilson de Moura Fé, Paulo Gurgel, Pedro Henrique Saraiva Leão, Sebastião Diógenes, Vladimir Távora, Walter Miranda e Weimar Gomes.
Apresentação: José Maria Chaves (Presidente da Sobrames Nacional) e Linhares Filho (Professor do Curso de Letras da UFC e Membro da Academia Cearense de Letras) com o texto "Sob o Signo de Duas Artes".
Dedicatória: "À memória do Prof. Eilson: saudades sobramistas" por Marcelo Gurgel.
Projeto Gráfico e Arte Final: Júlio Amadeu
Coordenação: Walter Miranda
Organização e Revisão: Walter Miranda e Marcelo Gurgel
Imagem da Capa: Obra iconográfica do pintor peruano Pablo Amaringo após ingerir a bebida alucinógena ayahuasca.
Editoração e Impressão: Expressão Gráfica e Editora Ltda.
Tiragem: 700 exemplares
Livro com 178 páginas.

ACHADO CASUAL

Lançamento do livro
A Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional do Ceará (Sobrames - CE) e a Diretoria de Cultura e Arte do Ideal Clube anunciam para hoje, à noite, a solenidade de lançamento do livro "Achado Casual", a vigésima-terceira antologia anual da Sobrames - CE.
Os autores e o livro serão apresentados pelo Prof. Dr. Linhares Filho, Membro da Academia Cearense de Letras.

Data: 25 de novembro de 2008, às 19h30.
Local: Salão Meireles do Ideal Clube.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

A TÍTULO DE...

Vez por outra me surpreendo desempoeirando velhos papéis guardados. Entre notas fiscais, cartas, recibos, cartões de visitas, um que sempro encontro pegando aquele ranço é o meu título de eleitor.
Arranjo tempo para levar dois dedos de prosa com ele:
- Oi, bicho.
- Até que enfim... você me aparece. No mínimo, está de saída para votar.
- Desinformado... Então, as traças não lhe contaram? Que não vai haver eleição no ano de 1980.
- Mas... não estava tudo certo?
- E você... é como o cartão de crédito que acredita em tudo aquilo que ouve?
- Bem, a intenção...
- Aí é que está! É grande a distância entre intenção e gesto.
- Quer dizer que o partido do governo vai continuar...
- Um momento. Agora se diz: partido no governo.
- Detalhes de semântica.
- Muito mais. É o próprio jogo democrático, dizem.
- E a oposição?
- Caiu no conto do pluripartidarismo. Quando deu fé estava já toda dividida.
- Sendo assim, não vejo ocasião mais propícia do que esta para o partido no governo, como você diz, desfechar um golpe de misericórdia na oposição.
- Teoricamente. Na prática, a oposição pode fazer uma holding.
- E qual é a opinião dominante no seio da classe política?
- Olhe, anjo. Quem conseguiu lugar no salão vai continuar se requebrando para que o mandato, digo, o bambolê não caia da cintura.
- Você considera isso justo?
- Não. Mas os políticos, sustentados pelos resultados de uma pesquisa feita entre eles, bastante semelhante a uma que ocorreu no Congo Belga, em 1928 (Macaco, você quer banana?), acharam a prorrogação de seus mandatos a coisa mais justa do mundo. De modo que pretendem continuar representando o povo...
- Representando para o povo, fica melhor.
- Como preferir. Agora, a consequência é que você nem em 81 vai receber carimbada nova.
- Mas... 1982 promete. Com eleições para vereadores, prefeitos, deputados, senadores, governadores...
- Não esteja tão confiante. A nossa democracia é dinâmica, hiperdinâmica eu diria, e não pode cumprir fielmente um modelo de nação mais desenvolvida, como a Guatemala, por exemplo.
- Pô! O que é que eu vou fazer esse tempo todo?
Nessa altura, percebo que a raison d'être do meu título de eleitor anda a perigo e tento bancar o amável, pois tenho medo de que ele abandone de vez a gaveta para ir morar no Arquivo Nacional.
- Semana que vem, vai ter eleição para síndico do meu prédio. Você quer ir comigo?

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

APENAS

O esbarro
- Olhe por onde anda, descuidado - pensei. Mas o grito gêmeo do pensamento não aflorou. Segurei-o na garganta, assim que o estranho prontamente se desculpou por haver esbarrado em mim. E, sendo eu um pedestre costumeiramente desatento, até que ponto não havia também contribuído para o encontrão?
Mal se afastou o estranho, recompus-me. Os cabelos despenteados, as vestes em desalinho, os óculos mal armados no rosto...
A seguir, toquei-me em frente. Naquela rua de passantes tão apressados, outros esbarros que ocorressem. Sim, onde está o problema se todos temos as palavras corteses, os tapinhas nas costas e os sorrisos pré-moldados?
O meu receio é apenas o de que, algum dia, eu comece a esbarrar... em mim mesmo.
(de 1980, reescrita)
29/06/2012 - Atualizando...
O leitor fique certo de que os cientistas estão tentando melhorar esse estado de coisas, mas estão a fazer progresso a passos muito lentos.
How do pedestrians avoid collisions? In: The Guardian

O esparro
Na sala do meu apartamento de solteiro, como objeto de decoração, eu pendurara um tipiti na parede. O tipiti, para quem não sabe, é um cesto cilíndrico de palhas entrançadas, em cujo interior o caboclo da Amazônia põe a massa da mandioca ralada para ser espremida, antes de levá-la ao forno para que se transforme em farinha.
Não pensando em fazer agricultura de subsistência no apartamento, eu usava o tipiti ornamentado por uma planta do grupo dos filodendros: uma cara-de-cavalo.
Vivendo à sombra, e com uma modesta "ração" semanal de água, era uma planta realmente durona. Tirando algumas câimbras nas raízes, de que se queixava raramente, a cara-de-cavalo gozava uma saúde invejável. Enquanto iam tossindo e morrendo umas sempre-vivas vizinhas.
Certa vez, uma visitante me sugeriu aumentar-se-lhe o viço, colocando anticoncepcional em sua água. Bem, acho que a cara-de-cavalo não gostou da absurda sugestão. Pois tive a impressão de vê-la a rir, com todas as folhas, com o teor da resposta que dei à intrusa.
Que ela e eu éramos apenas bons amigos.

(de 1980, reescrita)

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

ESTÓRIAS DE DESVALIDOS

Escrivão não leu, o pau comeu
Tenório Avenças era o escrivão juramentado do cartório de Arapiúna. Uma urbe de pé de serra onde ele, morando e autenticando documentos, fazia um tipo perfeitamente adaptado à monotonia do lugar.
Ao amanhecer, ele punha a sela no velho burrico, as suas pernas para atravessar a cidade, e ia se entediar no cartório em regime de tempo integral. E, apenas quando o crepúsculo começava a soltar os morcegos, é que ele, montado na lerdice do asno, fazia o caminho de volta para a casa.
Um pacato cidadão, o diligente Tenório. Com a ressalva de que, à sua passagem, não o chamassem jamais de "escrivão jumentado".
Porque aí, meu irmão, dava briga com viés de guerra mundial.
A flor vai ao lodo
Umas e outras tomou João Limeira, acompanhado por uma "mulher de programa".
De bordejo em bordejo, os dois foram parar no portão de entrada de um clube social. Um clube com fama de "fechado", ao qual ele, na qualidade de sócio remido, muitas vezes levara a família para as piscinas domingueiras.
Fazia menção de que ia entrar, quando foi barrado por um dos diretores do clube, o qual, empunhando o estandarte dos bons costumes, chamou-o a um canto.
- Limeira, esta mulher aí parece uma prostituta.
Já afogueado pela bebida, João Limeira cresceu:
- Olha, negócio de parecer é com as que já estão aí. A que vai entrar comigo é prostituta mesmo.
Enlaçou a mulher. Entrou.
Garrafa cheia eu não quero ver espocar
Bebedor contumaz foi um certo Angico. Já meio combalido, nem assim se esquivava das bebidas espirituosas.
Cachaça, vermute, rum, uísque (inclusive paraguaio), enfim, o que pintasse era com ele. Ali, no balcão... resistindo. E não repartia nem com o santo.
Uma vez, porém, foi visto abrindo exceção:
- Angico, champanha?
- Não, moço. Eu não posso ouvir mais aquele estouro...
E arrematava, pesaroso:
- Deve ser a tal neurose.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

BICHOS DO NOSSO FOLCLORE

Boitatá
Bicho temido que habita nos campos santos. Para limpar a honra de monstro ultrajado, espera um dia dar uma carreira (no sentido mais olímpico possível) naquele cientista que descreveu ser ele: “a inflamação de produtos fosfóreos de corpos orgânicos em decomposição”.
Boto
Mamífero em forma de peixe dos rios da bacia amazônica. Um autêntico Don Juan fluvial, pois se transforma em rapaz de boa aparência para seduzir as moiçolas ribeirinhas. Considerado o progenitor das crianças de paternidade ignorada, esta sua fama está a se acabar pelo uso generalizado dos exames de DNA.
Caapora
É visto nas matas brasileiras a cavalgar um porco-do-mato. Tem os pés invertidos, o que melhora o desempenho de acelerar o seu veículo animal. Por sua mania de percutir as árvores da floresta, há muito tempo virou persona non grata entre os cupins.
Lobisomem
De origem européia, naturalizou-se brasileiro. Sem abdicar do costume trazido de cometer desatinos nas noites de lua cheia. Meio lobo e meio homem, a sua porção racional é a que uiva.
Saci
O famoso negrinho de uma perna só. Entre as baforadas de seu cachimbo, vive a armar ciladas nos caminhos para atazanar os viajantes. O travesso molecote do barrete vermelho respeito só tem aos nascidos em Caratinga, a terra de São Ziraldo, um santo bípede.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

NAPOLEÃO

Napoleão franzino
Na artilharia:
Deus cresça este menino
Em galhardia.

Napoleão, sua fama
De façanheiro:
Estava pronta a cama
De brigadeiro.

Napoleão, só glórias,
Pleno apogeu:
Ninguém tem mais vitórias,
Espelho meu!

Napoleão no Egito
Piramidal:
A empostação num grito
Sesquipedal.

Napoleão, seu estro
De lutador:
Tão bem empunha o cetro
De Imperador!

Napoleão, o avanço
Tem tropelias
Quando respira o ranço
Das terras frias.

Napoleão, o logro
Deles se via
Na potência de fogo
Das pneumonias.

Napoleão, agora
São os ingleses
Que fazem soar a hora
De mais revezes.

Napoleão no exílio
De Santa Helena
E... finda-se seu brilho:
Ilha pequena!

Napoleão, quem sabe
Às visões mil
Não fossem bons os sabres...
Mas o AMPLICTIL.

15/11/2014 - Fotos "vintage"
Little "Nap", o Napoleão do Mundo Chimpanzé, 1915

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

INFORMATIVO "A FERRAGISTA"

Em outubro de 1976, o empresário Edmilson Alves de Sousa, diretor-presidente do grupo "A Ferragista", deu início em Fortaleza à publicação de um periódico mensal de sua empresa.
Com o nome de "Informativo A Ferragista", tratava-se de um mensário de circulação dirigida, em formato de tablóide, impresso em cor sépia e cuja tiragem ficava na casa dos 10 mil exemplares. Inicialmente era composto e impresso no parque gráfico da "Tribuna do Ceará"; mais adiante, estas etapas passaram a ser feitas no "Jornal O Povo".
Por ser de distribuição gratuita, era Edmilson quem arcava com os custos do jornal, embora estes fossem parcialmente reduzidos pela inserção de anúncios de fornecedores de sua empresa. E, com gratuidade, os colaboradores do "Informativo A Ferragista" também lhe fornecíamos o material de suas páginas.
Em 1982, Edmilson foi merecidamente agraciado com a comenda "Amigo da Cultura", da Secretaria da Cultura e do Desporto do Estado do Ceará, por seu trabalho à frente do "Informativo A Ferragista", então já contando com 66 números publicados. Um trabalho que ele, após a homenagem recebida, ainda deu continuidade até outubro de 1983, quando o jornal alcançou a marca final de 81 números.
Seções e colaboradores
Administração: Franklin Fernandes Teixeira (coluna "Condomínio, o que é isto?") e Pedro Coelho Neto (coluna "Obrigações fiscais e trabalhistas")
Agronomia: Dácio Oliveira Pinheiro
Cariri: jornalista J. Lindemberg de Aquino
Direito: Joaquim Solon Mota
Educação: Marlene Bastos e Cyra Montezuma (também sobre Turismo)
História: general Raimundo Telles Pinheiro e médico Vinicius Barros Leal (também sobre Medicina)
Humor: médicos Paulo Gurgel Carlos da Silva e Celina Corte Pinheiro (coluna "Sessão coruja")
Língua Portuguesa: professor Hélio Melo
Literatura: Dias da Silva (crítica literária), George Barros Leal, José Danilo Correia Mota, advogado José Feliciano de Carvalho, Barros Alves, médico Pedro Bezerra de Araújo (às vezes, sob o pseudônimo de Pedro Nadie)
Medicina: médicos Marcus Antonius B. da Cunha (coluna "Destaques médicos"), Ocelo Pinheiro e Valter Justa
Música: Christiano Câmara
Página Espírita: coronel Edynardo Weyne (coluna "Grão de Mostarda") e Lúcio Márcio Teles
Vários: padre Fred Solon, Aluisio Ferro Gomes ("Seicho-no-ie").
Além disso, outras seções (não assinadas) e outros esporádicos colaboradores.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

ILUSTRADORES

Rendo minhas homenagens àqueles que, através de seus traços artísticos, ilustraram alguns dos meus velhos escritos.
São eles:
- Amorim
- Duarte
- Emanuel Melo
- Karlus
- Klevisson
- Mino
- Moésio
- Não Identificados
- Ricardo Augusto
- Valber
- Yendis

domingo, 31 de agosto de 2008

OTÁVIO BONFIM - SOB O OLHAR DE UMA FAMÍLIA

Para a entrada em cena da família Gurgel Carlos, podemos considerar o ano de 1946. Quando o jovem Luiz, da família Carlos da Silva, que havia recém-fundado o seu Instituto Padre Anchieta, no bairro Otávio Bonfim, e a sua aluna Elda, uma prendada moça da família Gurgel Coelho, que já morava nesse bairro de Fortaleza, foram ambos atingidos pelas setas de Cupido. Daí advindo que, no ano seguinte, o casal contraísse núpcias e fosse fixar residência na rua Justiniano de Serpa, onde já funcionava o citado instituto educacional.
Dos treze filhos gerados pelo casal, os nove primeiros receberam as boas-vindas neste modesto imóvel de dupla finalidade; os quatro últimos, numa casa (enfim) própria, para onde a família se mudou em 1958, situada na rua Domingos Olímpio, nas proximidades da estação ferroviária do bairro. Só muito adiante, em 1996, com vários de seus integrantes já casados e/ou residindo em outros bairros e em outras cidades, foi que o núcleo da família se transferiu de Otávio Bonfim.
Feitas as contas, conclui-se que o bairro Otávio Bonfim e a família Gurgel Carlos mantiveram um consórcio que durou meio século. Com Dores e Amores de permeio. E de que restaram muitas e muitas reminiscências, aqui reavivadas e transformadas em livro por Marcelo, da família Gurgel Carlos. No qual nossos ascendentes, os vizinhos e amigos, os tipos pitorescos da época e nós mesmos somos os seus personagens reais; no contexto de um bairro chamado (não oficialmente) de Otávio Bonfim com seus logradouros, suas moradias, sua igreja (com os franciscanos frades de origem alemã) e sua estação ferroviária.
Baseado em fatos vivenciados e levantados (porém, cuidadosamente conferidos) por Marcelo, que escreve em estilo claro e apurado, o livro é um repositório de informações sobre o bairro e sobre a nossa família. A se juntar – com destaque – a outros títulos, como “Anos Dourados em Otávio Bonfim...”, de Vicente Moraes, “Frei Lauro Schwarte...”, de Marcelo Gurgel, “Dos canaviais aos tribunais...”, organizado por Marcelo e Márcia Gurgel (sobre a vida de nosso pai), entre as obras que privilegiam, do ponto de vista historiográfico, o bairro Otávio Bonfim e a família Gurgel Carlos.

Escrito por mim para orelha do livro "Otávio Bonfim, das Dores e dos Amores - Sob o olhar de uma família", de Marcelo Gurgel. Texto também publicado no blog "Linha do Tempo".

sábado, 30 de agosto de 2008

NOSSOS MOMENTOS

O médico psiquiatra Wellington Alves de Souza, natural do Crato - CE, publicou em 1988 o livro de poesia "Nossos Momentos". Com esta obra, Wellington completou uma trilogia que havia iniciado em 1981, com "Momento de Tempo", e continuado em 1984, com "Outros Momentos".
Nas três obras, a presença da palavra momento(s)! Por ser a poesia, como lembrou o contista Moreira Campos na apresentação do livro, "um instante, um momento, uma centelha, uma visita". E que, por isso, como também complementou, ela (a poesia) "será sempre realizada num íntimo compromisso ou preocupação com o eterno".
Em "Nossos Momentos", a convite de Wellington escrevi uma das abas do livro. É o texto que acabo de inserir no Preblog. E a médica e poeta Aline de Moraes fez o texto da outra aba. Nas útimas páginas do livro, Adísia Sá e Eudoro Santana deram seus depoimentos sobre o autor. E o artista plástico Mino assinou a bela capa de "Nossos Momentos".
Aqui aproveito para dizer que Wellington é irmão do empresário Edmilson Alves de Souza, de quem eu já era amigo. Publicando, durante anos, o informativo mensal "A Ferragista" (uma espécie de house organ de seu grupo empresarial), que reservava espaço para assuntos diversos, Edmilson se destacou como um grande incentivador das artes no Ceará.
Foi nas páginas do informativo de Edmilson que eu dei os meus primeiros passos de escrevinhador.

Na galáxia dos livros brilha mais uma estrela. "Nossos Momentos", que Wellington Alves vem de publicar, por ser inteiramente impossível para o autor não partilhar conosco a sua rica cosmovisão. Na qual consciência não é ornamento, é ação. Ação que intenta reorganizar o homem, a sociedade para o seu grande destino. Por conseguinte, é o homem a sua confissão (malgrado o que disse Terêncio a respeito do ser humano). Arco de pura sensibilidade, o autor transpõe para o falar poético o cotidiano, a turbulência de existir, o tédio, a morte, a vivência psicanalítica, o sentimento da amizade, a esperança... e o amor à sua companheira, Fátima, "o ombro mais buscado". Do que resultam poemas de extraordinária oralidade, como se feitos para um jogral. Ou para que o solo de um violão lhes dê o contraponto. Além de tudo, Wellington é solidário com a vida em sua totalidade;na dor (o vitimário das arenas burguesas), mas também na alegria, na beleza e na liberdade. Este último sentimento, por sinal, tem feito dele um globe-totter e um poeta engajado na grande causa socialista. De ambos os ofícios, ao que parece, o autor de "Nossos Momentos" obtém a renovável força ("Aquela Criança em Acapulco...") para o cantar libertário. Axé para você, poeta.

sábado, 23 de agosto de 2008

A COR DO FRUTO

Em 1986, um jovem chamado Fernando Novais, então com 22 anos, nascido na cidade de Jardim e que cursava Odontologia na UFC, estreou literariamente no Ceará com um livro de poesia, "A Cor do Fruto".
Eu o havia conhecido nos circuitos boêmios de Fortaleza, algum tempo antes. Em 1985, talvez. Lembro-me de que gostava de MPB e de que vinha também fazendo poemas para um livro.
Senti-me lisonjeado no dia em que ele, ao me passar os originais de "A Cor do Fruto", pediu-me fizesse eu uma apreciação a respeito. A qual foi parar numa das orelhas do livro, ao ser este impresso. E que, agora, a coloco nesta postagem do Preblog
Nesse livro de poesia, considero que andei em excelentes companhias. Com Carlos D'Alge, que o prefaciou, e com Joaryvar Macedo que escreveu a outra orelha.
(Por falar em Fernando Novais, onde andará o amigo poeta?).

Não pretendo, neste espaço disponível, realizar uma análise estilística acabada da poética de Fernando Novais (FN), em "A Cor do Fruto", obra literária que ora se materializa. Meu propósito, bem mais modesto, é chamar a atenção do leitor para certos aspectos da técnica literária que o autor emprega neste livro, assim como para o seu temário.
1 - o som: de seus versos de metro espontâneo. Além de rimas FN usa, à saciedade, outras combinações sonoras como o eco e a aliteração. Linguagem sendo igual à massa sonora. Deste modo, frases e palavras são sacrificadas no altar da metáfora. O nocional pelo imagístico. É o perde-ganha da poesia.
2 - a denúncia: sobre o mundo desigual, o pensamento automatizado, a guerra, os seres sem pretexto, a inanição do sentimento, a hipocrisia etc. Usando apenas de expressões contidas (e evitando o chamado "texto sujo"), FN "dá uma geral" sobre a vida, seu balanço canhestro. E suas conclusões são irônicas e, por vezes, imprevisíveis.
3 - o ludismo: de quando o poeta cultua o instante, o descompromisso, o aqui-agora. & brinca com a ambigüidade das palavras & revisita os adágios já gastos & revolve o cancioneiro patropi. De quando o poeta, anarquicamente quase, cola os fragmentos de sua mundivivência. Coisa com qualquer loisa. & a geléia é geral.
4 - o corpo: "mais uma necessária montaria / do que ideal companhia", tal como é rotulado pelo poeta. Que, como qualquer homem, sofre as agruras da condição humana (ser matéria descartável é uma delas). Contudo: haverá um "eu" eterno, aderido ao "eu" percível? Não sei a resposta definitiva. Só sei que FN, vez por outra, bota as asas de "anjo contrário" e... ganha altura.
Não existe arte senão para outro e por outrem. Saboreemos, pois, as essencialidades de "A Cor do Fruto", de Fernando Novais.

domingo, 10 de agosto de 2008

EM BUSCA DE POESIA

PROEMIAL
Há janelas abertas no telhado por onde entram luzes. Do sol, da lua e das estrelas. Quando::: Actéon ousa ver Diana, a Caçadora. Ela, porém, encontrando-se desvestida, não gosta e faz mágica má. Act contínuo, Éon vira cervo e é perseguido por feroz matilha. Morre. Cervo ou servo, Lady Di não o quis. E, para gregos, romanos e bárbaros, expli::: citou::: que o banho de uma deusa é (para ser) indevassável.
(O vate o que mora numa água-furtada - há janelas abertas etc - sabe esta e outras estórias. Que sabem a plenilúnios.)
+
O livre o desabrido. O que vigia dourados trigais. O que ninguém consegue pegar a unha NEM à espora - galo.
Quando o olho clarear será aurora.
E::: das cinzas faz-se a (outra) ave, desiludida tão. Recompondo-se como há séculos há seculórios aprendera de sacerdotes, em Mênfis.
É-lhe imanente a memoração. Porque os grilhões do DNA.
Ave, ave. Só a engenharia genética, um dia, vos dará as exatas asas para o vôo libertário.
+
Como é bom tocar um clavicórdio! Aquele um.
Bailam Maries, Amandas e Yolandas. Bailam dançarynas de/os traços mais fugidios. Por seus rostos não se lhe adivinham as máscaras.
A dança é breve, é. Enquanto seu yang/sangue ferve por vós.
Cortai para::: uma cinelândia-fantasma de gentes que não dançam mais, que não dançam, que não, que::: a memória é urna cinerária.
Bye, bye larinas.
+
Andar ilho andar ilha.
O rio circular o que margina a ilha é Uroboros, a serpente que morde a própria cauda. Da esmeralda é sua cor.
Quando ele o rio encrespa a superfície / & ela a serpente, a pele / ::: aí tendes vagas ((intransponíveis)) vagas. E a solidão do mundo no próprio mundo.
O ser insular o gnomo da hexacorália.
Morreis muitos em Uroboros, suas estremeções periódicas.
+
Quanta coisa se irisa diante de mim!
Ou::: mais alucynações. Sois cavilosa, ó ânfora etrusca.
+
O deserto por palmilhar. Mas o que é o deserto senão a orla de um oásis?
Irei convosco, pois. Seremos dromômanos, manos sob o olhar complacente dos djins de fogo. Suportaremos manos, nós, o peso das mochilas, fardos da temporalidade. E deixaremos profundas, fundas pegadas na vastidão arenosa, que o vento, acumpliciando conosco, por certo não as apagará.
Assim, saberão os pósteros que estivemos aqui, ali / & ontem, hoje / em busca do poema, seus mananciais.
Porque amanhã em Aldebarã, a estrela.

Escrito para prefácio do livro "Em busca de poesia", de Dalgimar Beserra de Menezes, que foi publicado em 1985.

25/10/2017 - Atualizando ...
"O melhor prólogo é o que contém menos coisas, o que as diz de um jeito obscuro e truncado." -  Machado de Assis, no "Memórias Póstumas  de Brás Cubas".

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

MÉDICOS ESCRITORES E ESCRITORES MÉDICOS

Livro que reúne mais de cem autores, entre médicos escritores (que fazem literatura) e escritores médicos (autores de livros de medicina), que foram graduados pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará.
Foi uma edição comemorativa dos cinqüenta anos da FMUFC, que contém, em sua primeira parte, dados biográficos dos autores e, na segunda parte, uma antologia de textos.
Livro organizado pelo médico Geraldo Bezerra da Silva, por indicação do médico e professor José Murilo Martins.
Integra a Coleção Alagadiço Novo cujo Conselho Editorial, em 1998, era composto por Francisco Carvalho, José Murilo Martins e Geraldo Jesuíno da Costa
Apresentação: João Maia Nogueira
Capa: Assis Martins
Editoração eletrônica: Carlos Alberto Dantas
Imprensa Universitária, 1998
180 páginas

Participo deste livro com meus dados biográficos nas páginas 55 e 57 e com o poema "Descubram seus rostos" e o conto "Ponto e vírgula" nas páginas 157 e 158, respectivamente.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

1º CONCURSO NACIONAL DE PROSA E POESIA

Livro publicado pela Associação Médica Brasileira (AMB), em 1991.
Reuniu os textos em 10 primeiros lugares nas categorias prosa e poesia de um concurso nacional, promovido pela AMB, por ocasião de seu quadragésimo aniversário.
Prefaciado por Antonio Celso Nunes Nassif, Presidente da AMB. Apresentado por Julio Sanderson de Queiroz, Diretor Cultural da AMB.
Coordenadores do livro: Mario Jorge Rosa de Noronha e Julio Sanderson de Queiroz.

O CAMINHO DO MEIO
(7º lugar)

Um dia Godarta se encontrava à sombra de sua figueira-da-índia favorita. Exercitando-se na separação do Eu, enquanto a mente vagueava pelos confins do mundo. Assim, via-se uma carpa prateada a mergulhar num rio bem profundo, procurando alcançar o ponto onde repousavam todas as causas. E reconhecia-se no corpo de um crocodilo cujos toscos dentes tinham inquietações menos metafísicas. Godarta era a carpa que não morria, o crocodilo que não jejuava e era: Buda, o Iluminado.
Nisso, eis que dele se aproximou Bronkho, o discípulo não exatamente favorito. Bronkho era um obtuso do espírito. Por mais que se esforçasse ele não assimilava as Quatro Verdades, que são o cerne da doutrina budista. A bem da verdade (desta vez, verdade não budista), entregue-se Bronkho pelo seguinte. Perigava ele ser jubilado, a começar na disciplina de Godarta. Pois que nada, até então, se decantara do espírito do discípulo que melhor não se conseguisse do espírito de um javali.
Foi todo metediço, ele. E, querendo ganhar ponto, na tigela de esmoleiro do Mestre depositou figos. Um punhado de figos cristalizados... quando Godarta só os comia ao natural. A seguir, sentou-se. De modo que sua postura imitasse a do Mestre, nas comichões inclusive.
"Oh, por que não tirei patente desta posição?" - pensou Godarta. E mergulhou em si novamente. Nesses mergulhos era quando ele consultava a glândula pineal, a bola de cristal dos Iluminados. Mas Godarta mergulhou a ver se Bronkho desistia do assédio e ia chapinhar num lago próximo com as velhas cegonhas. "Homessa! Nem com elas o noviço aprendera a fazer as abluções." Só que Bronkho - com a idéia fixa de ser também um Iluminado - não arredou pé. E continuou a cacetear o monge.
- Mestre, como devo proceder para alcançar a Iluminação?
Godarta, por uns momentos, acarinhou a idéia de mandar o discípulo para o Ciclo dos Renascimentos. Numa transmigração à ré, quem sabe, ele chegasse a pirilampo, bichinho que tem lá suas iluminações. Mudou de idéia, porém. Assim que lembrou ser Bronkho, sem carteira de trabalho assinada, um ativo faz-tudo doméstico. Mais: lembrou que o noviço lhe proporcionava, o tempo todo, um senhor treinamento na virtude da Paciência. Então, em vista destes lembrados, o Venerável preferiu mil vezes resmungar o "Om", a palavra das palavras.
No oco da figueira sagrada Godarta tinha um adjutório. Para quando alguém fazia uma pergunta como a que Bronkho fez. Uma harpa em miniatura, a qual era vigiada pelos esquilos que habitavam a árvore. "Ah, o Nirvana não é tudo!" E Godarta costumava tocar a harpa para o seu corpo ficar Sansara, para ficar tudo jóia rara, qualquer coisa que se falara. Etecétera. Mas... o Venerável usava também a harpa para ilustrar os seus ensinamentos. E - era aquela uma ocasião - a entregou ao morrinha do Bronkho, acompanhada de uma pergunta de reflexão.
- Quando as cordas estão muito retesadas, obtém-se um som agradável?
- Não, Mestre.
- E se estão por demais frouxas?
- Também não, Mestre.
Óbvia a intenção de Godarta. Através desse diálogo, mostrar ao noviço o caminho para a iluminação. O Caminho do Meio.
Assim, prosseguiu:
- Afina, pois, as cordas do instrumento. Nem tão tensas nem tão frouxas... e toca.
- Mas, Mestre, eu não sei tocar harpa.
- Então, esquece.
Os conhecimentos podem ser transmitidos, mas nunca a sabedoria. E se Bronkho era Buda em botão... não levava jeito de desabrochar. Foi o que Godarta concluiu um pouco antes de se fazer peregrino para mostrar a todas as gentes o Caminho do Meio.
Quanto a Bronkho, o Opaco... ah, esse ficou no Meio do Caminho.

domingo, 20 de julho de 2008

POETAS DO BRASIL

Coletânea de poesias publicada em 1985 pela Mirante Arte Editoral. Obra com muitos participantes e editada pelo sistema de cooperativa.
Neste livro encontra-se o meu "Micropoemas do Infortúnio". Revisado e por partes, o "Micropoemas..." tem sido também publicado no Blog do PG.

ESCRITORES BRASILEIROS

Coletânea de poesias publicada em 1985 pela Crisalis Editora. Obra com muitos participantes e editada pelo sistema de cooperativa.
Nas páginas 91-92 deste livro encontra-se o meu "Micropoemas do Infortúnio". Revisado e por partes, o "Micropoemas..." tem sido também publicado no Blog do PG.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

A NOVA LITERATURA BRASILEIRA 1984

Obra viabilizada pelo sistema de cooperativa da Shogun Arte no ano de 1984. Constou de 2 volumes reunindo contos, crônicas e poemas de muitos autores do Brasil.
Participei do segundo volume da coletânea com a crônica INVENTANDO COISAS...

O invento, qualquer invento, é um produto do ócio: sustento isto. Mas, se querem que eu assine embaixo, dêem-me ao menos uma caneta de tinta mágica. Daquelas cuja tinta, ao ser colocada num papiro, volatiliza-se minutos após.
Estou me protegendo, lógico. Quem, como eu, possui um mínimo de responsabilidade sobre os ombros (a lição que aprendi com o mitológico Atlas), não deve jamais sustentar alguma coisa e, ao mesmo tempo, assinar. Porque aí o céu desaba.
R. Taton, com seu "Reason and Chance in Scientific Discovery", vem agora em meu socorro. "A invenção não aparece durante os períodos de trabalho assíduo, mas durante os intervalos de descanso e relaxamento." A tal "Síndrome do Eureka".
Trocando em miúdos: a invenção não aconteceria enquanto o cérebro estivesse trabalhando feito um mata-mouros e, sim, quando ele fizesse uma pausa para o cafezinho. A favor desta teoria o modo como foi inventado o forno a microondas.
Mas... deixemos mister Taton em seu mister e continuemos no ócio, aliás, falando sobre o ócio. Quem nunca inventou algo é porque está no bê-a-bá do ócio. Por favor, não chamei ninguém de beócio, apenas disse que, em não sendo um inventor, estaria longe do zênite da ociosidade.
Cientista, pesquisador, tecnologista, que nome se dê ao inventor, ele é sempre alguém que vai fundo na ociosidade. Para o exercício da vagabundagem criadora, antes de tudo, ele se liberta do jugo do tempo. Ou vocês acham que o relógio do ponto teria sido inventado, se o seu criador fosse alguém preocupado com as horas?
Mas o diabo é que o relógio do ponto foi inventado e, a partir daí, como ficou difícil a gente sair à francesa do trabalho! E, para verem vocês o que é a natureza desumana, o produto do ócio de um relojoeiro-inventor em mãos patronais virou um grande negócio, vale dizer, uma negação do ócio.
Se há inventos para nos atazanar, outros existem para a nossa maior comodidade; separar o joio do trigo importaria uma longa discussão, caso por caso. De qualquer modo, no panorama atual, uma hipotética exclusão deles tornaria a sociedade moderna simplesmente impensável. Desinventar a roda, por exemplo, acabaria com a Era do Gurgel em que vivemos.
Felizmente, aqui repito, felizmente, desinventor de roda nunca tem vida suficiente para levar adiante o famigerado "Projeto Pé-Dois"; morre antes, atropelado. Ei, não estou falando mal dos praticantes de jogging. Eles conhecem a hora e o lugar.
A tal roda como surgiu? Conta-se que das mãos (e dos cérebros) de Og e Ug, dois cientistas das cavernas que, partindo de uma roda-protótipo de quatro lados, percorreram caminhos opostos. Og, optando pela diminuição dos lados e, com isso, obtendo uma roda de três lados, cuja grande vantagem era dar um solavanco a menos por giro, mas aí estacionou. Já Ug, pensando de modo contrário, foi progressivamente aumentando os lados da roda protótipo, até chegar a uma roda de centenas de lados com os contornos arredondados. Na prova decisiva de descer a ribanceira, ganhou a roda de Ug - com a diferença de uma ribanceira sobre a roda de Og. Ug só não pôde comemorar devidamente o feito porque, ao dar o pulo da vitória, foi infeliz e bateu com a cabeça justo no porrete de Og.
Há outros momentos burlescos na história das grandes invenções. Michael Faraday, o genial físico, certa feita mostrava à rainha Vitória I um artefato magnético que ele recém criara, quando Sua Majestade, a Rainha da Grã-Bretanha e da Irlanda, a Imperatriz das Índias não sabendo ficar calada, perguntou: "Para que serve a gerigonça?" Ora, Faraday tinha a consciência da importância de seu rebento no mundo do porvir e devolveu a inquirição: "Senhora, para que servem os bebês?" A rainha saiu tão agastada do episódio, conta-se, que só conseguiu gerir a loura Albion durante 64 anos. Ficou conhecida como Vitória I, a Breve.
Quando Faraday morreu um rapazote norte-americano, de vinte anos, maravilhava o mundo com sua inventividade. Thomas Alva Edison, o inventor da lâmpada incandescente, do fonógrafo para cães e do vibrador (este último tinha um porém, só funcionava na mão de Parkinson). Ao todo, Edison inventou 1.001 engenhocas, o que quase levou à estafa o staff do departamento de Patentes.
Agora, uma colocação derradeira. É possível o invento se voltar contra o inventor? É. Tenho conhecimento disto em pelo menos dois casos: o da guilhotina que decepou a cabeça de Joseph Guillotin, seu imortal inventor, e o do bumerangue.

terça-feira, 24 de junho de 2008

HETERÓCLITO, SUAS CASAS DE PASTO

Heteróclito, a namorada a reboque, fez um ar de desânimo. Todas as mesas do restaurante Half Star estavam ocupadas. A não ser que o maître... Lembrou-se de que o maître do Half Star tinha para com ele uma dívida eterna. Certa vez, Heteróclito lhe tirara um espinho da mão e o maître reconhecido lhe dissera: "Por você sou capaz de matar ou morrer, de preferência a primeira hipótese."
Não é só o chef que faz das tripas coração, em se tratando de amigos o maître também faz:
- Senhor Heteróclito, há uma mesa por enquanto desocupada.
- Qual?
- Aquela da tábua verde.
- A mesa da tábua verde? Mas... por que tem ela uma redinha estendida no meio?
- Dois chineses, logo mais, vão jogar uma final de tênis de mesa. Se o senhor não se incomoda...
- Não me incomodo. A mesa é bastante espaçosa.
Fizeram os pedidos. Petúnia, a namorada, um prato de quatro dígitos, e Clitinho, outro de três (para evitar que, no final, surgisse uma conta de cinco dígitos). Para beber, ambos concordaram com uma mineral. Uma mineral com gás "porque tem gosto de pé dormente".
Estavam sendo servidos quando, senão quando, os dois chineses chegaram. Estabeleceu-se um clima de tensão. Com os dois "chinas" considerando Heteróclito e a namorada intrujões. Pingue-pongueia, não pingue-pongueia, quando Clitinho teve a idéia de bancar o brasileiro cordial. Levantou-se e, em posição de sentido, cantou o Hino Nacional de Hong Kong. Na voz dele, ficou tão irreconhecível o hino que a confusão nem aumentou. Pelo contrário, acalmou os chineses que eles, pacificados, resolveram desembainhar as raquetes.
Deu-se a partida, com a bolinha quicando por entre pratos, taças e saleiro. Pensando bem, Clitinho e a namorada jantavam, mas com sobressaltos.
Pelas tantas, Petúnia não se conteve:
- Diacho! Por que não fomos ao restaurante vegetariano Ruminant Is Beautiful?...
Ele sorriu amarelo (sorriso desta cor fica melhor na cara dos orientais, sei disso).
Sem dar mostras de fádiga do plástico, a bolinha prosseguia em sua estratégia de mesa arrasada. Nos 3 a 2, fez salpicar o salpicão de galinha, nos 4 a 3, quebrou o pires das azeitonas, nos 5 a 4, tirou a milanesa de um trecho do filé, nos 6 a 5, fez subir uma cortina de farofa até que, nos 7 a 6, a bolinha foi sustada... para ser devidamente trichada por Clitinho.
Ah, a lição de uma tia de Heteróclito, nos tempos de antanho, quando a bola de couro dos moleques caía em seu canteiro de gerânios...

quinta-feira, 19 de junho de 2008

HETERÓCLITO, SEUS INIMIGOS

Como pode uma pessoa tão boa (no julgamento materno) como Heteróclito ter inimigos? Mas ele os tem: inimigos figadais e baçais, conforme o órgão visado. Se bem que, com o passar do tempo, a diferença se acabe, pois os baçais evoluem para figadais. Sempre. E os figadais de uma figa, todos eles, estão no encalço do nosso herói. Temo, porém, que não haja resposta para a pergunta inicial. Ou que haja: Judas, que era Judas, tinha inimigos, por que Heteróclito não haveria de tê-los?
Só que Heteróclito não precisa ter inimigos com os amigos que tem. Como, por exemplo, o Toinho Valha Couto que, pelo hábito de bater velozmente as abas do nariz, é também chamado de Narinas Frenéticas. Se a doutrina da transmigração da alma estiver correta, esse Toinho em outra encarnação foi coelho. Ou Coelho. No entanto, para não derivar muito, deixo a descrição completa do calhorda para outra oportunidade. Fiquem só com este conceito: Toinho Valha Couto é dos que apertam os outros fora do abraço.
Ah... Ah... Matar Heteróclito numa quarta-feira normal de trabalho é simplesmente uma piada. Ele não tem existência real na azáfama da semana, no ruge-ruge leonino do dia-a-dia. Alguém, por acaso, já matou um espectro de homem? Um zumbi? Assim é Heteróclito. Um Jó-vivente que trabalha mais do que o permitido pela "Lei de Saúde dos Aprendizes", do parlamento britânico de 1802. Querido pistoleiro: conseguirás no máximo fazer alguns buracos em Clitinho. Não haverá a homologação divina para o teu nefando ato.
Clitinho hás que matá-lo no ludismo de um fim de semana, que é quando ele segrega pelos poros vida. Para facilitar, nossa vítima durante o "uiquende" tem um roteiro necessário. Começa sexta-feira à noite, no Estoril; mas, oh!... não o mates agora. Não são três horas da manhã, e Heteróclito et caterva ainda não derrubaram o governo da República. Se o fizeres darás "preju" ao povo, de onde emana todo o poder inclusive o de fogo.
Sábado à tarde, poderás encontrá-lo no Capacete Branco, uma barraca de beira-praia. Lá, banhistas e proprietário respiram um clima de mútua confiança. Heteróclito gosta. Invariavelmente, ele toma quatro cervejas e tenta pagar duas. Vem o proprietário da barraca, passa o ciscador na areia, e ele é obrigado a pagar seis. São as regras do jogo. Estás disposto a pagar a exorbitante conta dele? Não? Esperemos então a noite chegar.
Heteróclito está na casa de serestas do Santiago. A casa encontra-se lotada, pensa nisto um par e meio de horas antes de perpetrares o "cliticídio". São pessoas sensíveis que não tolerarão, jamais, que um estampido fira a suave música. Se, ao menos, o regional estivesse tocando aquela peça de Tchaikovski que tem ribombar de canhões, aí sim aproveitarias a circunstância. Mas não. Estás cheio de dedos, pistoleiro, percebo. E não aparece um cristão de senso prático que te traga uma harpa.
Na manhã de domingo Clitinho entra numa edipiana. Acarinhado pelas três tias solteiras de Jacarecanga que tentam, a poder de caldos de carne e limonada, tirá-lo de uma tremenda ressaca. Uma ressaca maior do que a do mar de Jacarecanga. Tem dor de cabeça terebrante, matéria ígnea no estômago... Meu Deus, Heteróclito promete não beber de hoje para trás. Nessas horas, ele tem vontade de ir passear no barco de Caronte. Por precaução, as cuidadosas tias escondem de Clitinho todas as armas potenciais da casa inclusive o cortador de unhas. Trucidá-lo agora é um ato de solidariedade, não condiz com a tua mal-querença. À tarde, então.
Pena que, à tarde de domingo, ele não possa ser interrompido. É quando ele dá prosseguimento ao "Queda e Coice do III Reich", um livro que espera editar pela Nação Ybiapaba. Os pensamentos voam, as palavras andam, a língua de Heteróclito vez por outra se engancha no rolo da máquina de escrever e, por isso, o livro vai lento. Tens que temporizar, pistoleiro. Esse livro, que no momento se resume a uma ficha catalográfica, é um terço do ideal dele.
Mas eu sei onde as andorinhas têm insônia. Toda noite de domingo Heteróclito vai para a cama com a Bruna Lombardi. Já perdi a conta das vezes em que ele, na noite domingo, leu na cama o livro de poemas da Bruna. Pois a hora é essa, matador. Sem dizeres fogo vai, atira nele o bom tiro. Bom tiro, matador - antes que eu esqueça -, é aquele que sai pela culatra.

MULTICONTOS

Em seu Projeto Cultural de 1983, o BNB-Clube de Fortaleza promoveu o I Concurso de Contos com o objetivo de revelar novos autores cearenses. Concorreram 80 autores, dos quais 39 tiveram seus trabalhos selecionados pela comissão julgadora.
Fizeram parte desta comissão os escritores José Alcides Pinto (recentemente falecido), Airton Monte e Batista de Lima. E, na coordenação do certame, esteve o Sr. José Aldro Luiz de Oliveira, à época o diretor cultural do BNB-Clube.
Os trabalhos escolhidos, em número de 44, foram reunidos em um livro intitulado MultiContos. Com dois contos premiados (Heteróclito, seus inimigos e Heteróclito, suas casas de pasto), tive a satisfação de vê-los publicados na referida coletânea.

MultiContos pode ser lido na internet no site issuu,com.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

DOIS CONTOS

De minha autoria figuram na ANTOLOGIA ATÉ AGORA os contos COM A CARA E A COVARDIA, nas páginas 146 e 147, e PONTO E VÍRGULA, nas páginas 148 e 149, que já haviam sido publicados em ESMERALDAS e LETRA DE MÉDICO, respectivamente.

PAULO GURGEL

sábado, 14 de junho de 2008

A PROPÓSITO DESTA ANTOLOGIA

A partir de 1983, a SOBRAMES – CEARÁ tem mantido a louvável tradição de publicar livros quase que anualmente (foram dez publicações em treze anos).
Em 1995, publicamos o décimo livro e chegamos à conclusão de que a hora era de comemoração.
Acreditamos que uma excelente maneira de comemorar nossa dezena de livros seria editando o décimo primeiro que resumisse o que de melhor apresentassem os anteriores.Assim nasceu Antologia Até Agora 1983 – 1996, cujo lançamento programamos para a ocasião do XVI CONGRESSO NACIONAL DA SOBRAMES porque mostraríamos aos colegas de todo o Brasil o nível de produções literárias e a atuação da SOBRAMES – CEARÁ.

MÉDICOS: POESIA E PROSA

Carlos D’Alge

Em 1995, a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Ceará publicou o seu décimo livro reunindo a produção literária dos seus associados.
Para assinalar essa ocorrência, a Sociedade edita a Antologia Até Agora 1983 – 1996, que será apresentada por ocasião do XVI Congresso Nacional da SOBRAMES.
A Antologia inclui 25 poetas e 22 prosadores, números expressivos que comprovam o traço humanístico desses médicos que, entre os hospitais, as clínicas e o Curso de Medicina, ainda encontram vagas para a literatura.
Vejamos os poetas. São 67 composições, numa média de três por autor. Todos eles figuraram nas antologias da SOBRAMES – CE. Entre eles, há um desaparecido, Caetano Ximenes Aragão, cujo Romanceiro de Bárbara foi muito festejado pela crítica. Caetano era um humanista. Clínico Geral, possuía uma bem selecionada biblioteca. Coerente com as idéias da juventude, nos seus livros registrou preocupação com a justiça social. O médico Geraldo Bezerra oferece um dos poemas desta Antologia a Caetano:

“O poeta montou no seu sonho
E alegre, risonho
Voou para o além.”


Luís Teixeira Neto é o autor do poema mais longo, com o título “Poema sem nome, escrito em 1968”. Emanuel Carvalho de Melo dedica um dos seus poemas a John Lennon, cuja poesia e música embalaram o sonho de muitas gerações. Heládio Feitosa e José Rômulo Barbosa são autores de bem elaborados sonetos. Pedro Henrique Saraiva Leão, poeta, acadêmico, professor e presidente da SOBRAMES –CE, no estilo que já é conhecido, ironiza poeticamente ocorrências que assustam o mais comum dos mortais, como o câncer e o infarto:

“Não tenho medo do câncer
temo que canses de mim.
É preciso que eu esteja farto
quando o infarto chegar
que o carteiro tenha passado
que a festa tenha acabado.”


Finalmente, já que não há tempo nem espaço para citar todos os 25 poetas, destaque-se o poema “In memoriam Sr. Andrade de Tal, um cadáver de estudo”, de Ricardo Augusto Rocha Pinto, e ainda os poemas de Antero Coelho Neto e Hamilton Monteiro.
Os prosadores, em número de 22, são autores de 34 textos divididos entre a crônica e o conto. Não é fácil precisar os limites do conto. A crítica tem procurado estabelecer alguns parâmetros que são discutíveis. Moreira Campos dizia que conto era tudo aquilo que o autor assim denominava. Há os modelos tradicionais: Machado de Assis, Eça de Queirós, Humberto de Campos, que também escreveram crônicas para os jornais. O conto moderno, que nasce com Tchecov e Maupassant, hoje é mais curto e tende a fixar uma situação.
Nos cronistas e/ou contistas da Antologia Até Agora há uma exceção, homenagem ao saudoso médico, fundador da Faculdade de Medicina, e humanista, Newton Gonçalves. A sua aula de abertura dos cursos da Faculdade de Veterinária do Ceará, proferida em 1º de março de 1972, com o título de “Louvação dos Bichos”, é um bem documentado trabalho sobre os animais do nosso cotidiano.
Dos 22 prosadores realço duas interessantes narrativas: “A Heroína de Mossoró”, de Francisco Nóbrega, episódio do tempo de Virgulino Lampião, e a de Marcelo Gurgel que, entre o sentimento de perda e saudade, evoca o médico Paulo Marcelo Martins Rodrigues.
E, para concluir, destaco as crônicas de Roque Muratori (meu colega no Colégio Cearense), Flávio Leitão e Cleto Brasileiro Pontes, e ainda os contos de Paulo Gurgel.

ANTOLOGIA ATÉ AGORA 1983 - 1996

Antologia de prosa e poesia publicada em 1996 pela SOBRAMES, Regional do Ceará.
Edição Comemorativa ao XVI Congresso da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores.
Reúne 101 composições produzidas por 47 médicos e já publicadas em dez livros anteriores (TEMOS UM POUCO, CRIAÇÕES, SOBRE TODAS AS COISAS, LETRA DE MÉDICO, EFEITOS COLATERAIS, MEDITAÇÕES, OUTRAS CRIAÇÕES, ESMERALDAS, PRESCRIÇÕES E AMOSTRA GRÁTIS) da Sobrames - Ceará.
Apresentação de Carlos D'Alge.
Livro com 162 páginas.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

ARMA QUENTE - 2

"Não, John, a felicidade não é uma arma quente."

O facínora encostou o (ainda) frio cano do revólver em meu peito e disse:
- Sabia que vai morrer?!
Chamo-me Bernardo. O que, quando bem entendo, me dá o direito de cometer alguma bernardice.
- Vou, é? Quando?
- Agora mesmo. Não está vendo o "berro" aqui?! O Honorato me mandou...
- "Peraí"... O Honorato é meu amigo!
- Não morra iludido, cara. Ele me pagou - e bem - para que eu despachasse você.
- Quanto?
- Não está querendo dobrar a grana, está? A fim de trocar de lugar com ele...
- Não, o Honorato não vale o dobro de mim.
E não vale mesmo. Nos últimos tempos, minhas dívidas não estavam sendo pagas, outras tantas vinham sendo contraídas, e... sabem por quê? O Honorato.... ele, como avalista, não honrava essas dívidas.
Agora, eis que me mandava um celerado de funestas intenções. Com os olhos injetados de quem à noite não dormira, só para me tocaiar. E que estava ali a me ameaçar. Ou será que, para ficar ainda mais ameaçador, ele pingara nos olhos colírio de groselha? Bem, perguntar é que eu não ia, pois estava em plena defensiva. E cabia-me, até onde o auto-controle funcionasse, ser polido em toda a conversação.
- Ora, o Honorato não precisava...
- De quê, cara?
- Ser tão preocupado comigo. Empreste-me o revólver que eu sei morrer por minhas próprias forças...
- Espertinho.
- Ou por falta delas... de morte natural.
- Demora muito. E o que eu acertei com o Honorato foi morte matada.
Pensei numa opção para a sobrevivência que não ficasse apenas na argumentação. Alguém já me dissera que os meliantes costumam usar balas imprestáveis. Dificuldades em obtê-las de fontes idôneas e que, por conta disso, suas armas de fogo muitas vezes "quebram o catolé". Há inclusive toda uma estatística em favor de quem está prestes a ser vítima, desde que não esta não esqueça as palavras mágicas:
- Pernas para que vos quero!
Exatamente o que cumpri à risca. Enquanto o celerado, naquele afã de mostrar serviço, pôs-se a descarregar o revólver.Com quatro tiros bem na mosca, isto é, em mim.
Alvejou-me no ventrículo esquerdo, na crossa da aorta, no tronco da coronária e, por último, no cabo do meu marca-passo cardíaco, desconectando-o.
Como vêem, nenhum dos tiros atingiu-me algo que fosse vital. De sorte que, se ele me matou, não fez o serviço bem feito.

P.S.: Caso o facínora venha a ser preso e, por um desses equívocos da Justiça, aconteça de ser condenado eu já deixo instrução a respeito. Com o meu advogado - que também se chama Bernardo - para imediatamente apelar.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

ARMA QUENTE - 1

Por não mais suportar tanta aflição, Evilásio decidiu tentar a solução do desespero. Pegar o "três-oitão" em cima do guarda-roupa, encostar o cano da arma na têmpora, apertar o gatilho e... explodir os miolos. Para pôr termo a uma existência que, numa avaliação que ele mesmo fizera, adquirira ultimamente um péssimo valor. De mel coado, no máximo. Como sói acontecer a todo ser humano em que a paz de espírito deixa de ser possível. Por razões as mais diversas, já que este mundo como Deus o fez é de tão grande complexidade.
No seu caso, por causa dos assuntos com que a mulher - uma seca-pimenteira de marca maior! - vinha-lhe chateando. De modo contínuo - como cantiga de grilo! Em que a temática eram as pequenas catástrofes, por ela pinçadas com a precisão de relojoeiro no dia-a-dia do bairro. Posto não ser mulher de deixar passar em branco infortúnio de ninguém mas, sim, de relatá-lo (com grande prazer, claro) onde ouvidos existissem. Para o desasossego de Evilásio que, tendo estes mais alcançáveis, não tinha quase como fugir do tagarelar da leva-e-traz.
Ah, sobre ele andavam a desabar todas as conversas desagradáveis que perambulavam pelo bairro... Trazidas pela falação de Abigail, esse o nome da megera, de uma forma tão assídua para o recesso do lar, que ele ficava a ponto de estourar. No passado, fora mais suportável essa desdita, é verdade. Evilásio então trabalhava num emprego público onde ficava a salvo, em grande parte do dia, do baixo astral da esposa. E esta, para descarregar o humor mórbido, tinha de recorrer a outras companhias. Umas comadres que, após atenciosas escutas, como retribuição enriqueciam-lhe também a pauta.
Mal ele chegava a casa, Abigail já abria o inesgotável bedelho:
- O Manoel não passa deste mês, está desenganado pelo médico.
- Hum...
- Das Dores anda botando chifres no marido.
- Hum... hum...
- O cachorro do Ari mordeu o carteiro.
A saída era Evilásio desistir do programa da televisão (o jornal houvera lido no emprego) e ir até a mercearia da esquina. Dar umas "bicadinhas", enquanto o tempo passava, até se sentir entorpecido o bastante para retornar. Numa hora da noite em que na mulher, por se encontrar dormindo, já houvesse encostado a matraca. E o ambiente refeito em silêncio - como é da prerrogativa de um cidadão que quer apenas isto: dormir! No dia seguinte, era ele engolir o café apressadamente e, o mais rápido possível, arrancar-se para o trabalho (que ouvido de gente não é pinico).
Um dia, porém, o nosso barnabé aposentou-se. Ficando, desde então, em regime de tempo integral à disposição dos aporrinhamentos conversatórios da mulher. E, pouco tempo depois, descobriu que fugir para o boteco não seria mais possível. Uma gota de extrema severidade, que o privava de consumir álcool e tira-gostos, havia estrompado a antes tão querida válvula de escape. E, mais, muito mais, com a rápida progressão da doença, Evilásio se viu praticamente um inválido - todavia, com a audição perfeita. Para regozijo de Abigail cuja conversa aí desceu ao nível de poleiro de pato.
Dias e noites de tortura se seguiram para Evilásio. Um sofredor ante o matraquear da esposa que, aproveitando-se da situação, não dava a mínima trégua. Nisso, foi quando ele, como se falou no começo da história, decidiu tentar a solução do desespero. Perante a tagarelice da mulher cuja língua, em se tratando de fofocar, não parava de crescer horrores. Com a ressalva de que caso sobrevivesse (contingência de quem pratica a roleta-russa, por sinal), ela não entendesse a experiência como encerrada. E acionou o gatilho.
Bem, não partiu da arma nenhum projétil a varar o crânio do desinfeliz. No entanto, quando ele mostrou que, no tambor do revólver, existia de fato um cartucho (apenas por acaso não deflagrado), a mulher ficou estupefacta. E, desde aquele dia, para não ter de carregar um suicídio na consciência, mudou definitivamente o teor da prosa. Da água para o vinho (onde está a verdade, como se diz). Pois Evilásio, resoluto como se mostrara, já acenava com a possibilidade de repetir a façanha. Usando, na vez seguinte, dois cartuchos no tambor do revólver, depois três...
Só que não foi preciso prosseguir com a chantagem da roleta-russa. Porque Abigail, daí para frente, empenhou-se para que naquele lar só rolasse papo-leveza. E, Evilásio, em virtude disso, depois jogou fora os seus cartuchos que davam tiros de pólvora seca.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

O FAROL

Poderia ser chamado de farol do cafundó-de-judas, do caixa-pregos, do cornimboque do Diabo ou de farol com qualquer outra expressão do gênero. Que desse a idéia de estar situado num local ermo, afastado. Ou, ainda, simplesmente ser chamado de O Farol (menos de O Farol do Fim do Mundo, porque aí já seria plagiar Julio Verne). E, digamos que o farol em questão (Santa Sutileza, que quase me fez dizer "em foco"!) fora erigido numa ilha pequena e montanhosa - uma ilhota! A fim de que, na escuridão da noite, protegesse as embarcações da destruição contra os arrecifes. E, desse modo, evitar que vidas humanas servissem de repasto aos tubarões.
Quantos rochedos e arrecifes havia por ali onde um navio, em noite de breu, poderia bater! Sobrosso acontecia algum, porém aquele farol era a única garantia para uma nau atravessar aquelas águas sem... sobroço. Daí a importância do trabalho do guardião do Farol. Subir, todas as noites, a comprida escada helicoidal que ia dar na sala onde ficavam as grandes lanternas. A seguir, ajudado por Georges, imediato de guardião, encher de óleo o reservatório das grandes lanternas, as quais eram postas a iluminar o oceano (mas não todo o oceano, como pensava Georges).
Uma noite, porém, o faroleiro notou que muitas das residências da ilhota estavam às escuras. Pois que existiam outros moradores naquela ilhota (afinal, vocês não estão lendo o romance de Julio Verne). E ele procurou saber o motivo de tanta escuridão doméstica. "A falta de óleo para as lâmpadas", responderam-lhe. "E o navio de suprimento não vem antes de um mês. O que é a ironia, senhor. Mandamos luz para o oceano, mas não a temos em nossas casas". Embora não gostasse muito desse "mandamos" (pois era ele quem mandava), o guardião ficou de estudar a solução.
Logo, ei-lo em casa entregue a reflexões. Com os dedos maquinalmente entretidos com o pêlo bem cuidado de Philippe-Auguste, o fiel cão. Que é relaxante fazer pitó em pêlo de cão, lá isso é. Ademais, ajuda a aclarar as idéias... Ei! Quem sabe se ele emprestasse uma partezinha do óleo sob a sua guarda aos moradores, a fim de que suas lâmpadas voltassem a brilhar? Isto imaginado, o faroleiro com um safanão afastou Philippe-Auguste para que este fosse banzar em outro lugar e levantou-se. Foi cubar a reserva de combustível a ver se dava para realizar alguma beau geste. Não dava, é verdade, mas o guardião ainda assim preferiu correr o risco de emprestar o óleo. A ter de contrariar uma voz interior, arrastada nos erres, desde o início a favor do empréstimo.
Então, chamou Georges para que distribuísse entre os moradores, a cada um conforme as necessidades, o escasso combustível. Com isso, transgredindo as normas que diziam ser aquele combustível para uso exclusivo do Farol. E, aventuro-me a dizer, o que também moveu o guradião a tanto. Ter os ilhéus nas palmas das mãos, presos pela gratidão. Este sentimento que, em tempos de política (o guardião tinha um projeto), traz certos dividendo ao politicalho. Desse modo, daí a nada, em todas as casas da ilhota, estavam as lâmpadas a queimar o óleo amigo.
Não houve quem não vivasse o faroleiro. E, como dantes, os ilhéus voltaram a se alegrar nos fandangos bailados.
Até que, numa noite, o guardião foi visitado por um sonho. Ele sonhou que era o faroleiro de uma outra ilha - sem farol! Na qual a sinalização era feita pelos disparos periódicos de um canhão. Que eram dados de hora em hora, com pólvora seca - mas que produziam barulho e clarão suficientes para alertar os navegantes próximos. E, nesse mister, ele se revezava com alguém bastante parecido com Georges, só que mais retaco. A quem inclusive caberia o canhonear seguinte (visto que o guardião dormia e mesmo sonhava). No entanto, na hora devida o ajudante não deu a canhonada. O que fez com que, naquele momento de estampido nenhum, o guardião acordasse sobressaltado.
Algo de ruim se pressagiava. E, tomado de um mau pressentimento, o faroleiro subiu apressadamente até a sala das grandes lanternas. Estavam apagadas, e lembrou-se de que Georges antes comentara a respeito do fim iminente do combustível. E, não estando o Farol a facheá-lo, o oceano em volta era um pretume só. Ouvia-se o vento, o quebrar das ondas, gritos... Apurou os ouvidos. Sim, ouviam-se gritos. Mon Dieu, estava a acontecer ali um grande naufrágio e ele nada podia fazer. Recém se espedaçara um navio nos rochedos, gritos de desespero varavam a medonha escuridão, e ele... ele... nada podia fazer.
E não ficou somente naquele naufrágio. Ainda aconteceriam outras tragédias marítimas, todas elas por falta de um facho de luz que orientasse, durante a noite, as embarcações... (Não, não substituía o Farol a luz bruxuleante de umas tantas lâmpadas domésticas, pois estas mal alumiavam os compartimentos em que eram postas.) Até raiar uma manhã em que, ao se contabilizar o sexto naufrágio, constatou-se também que o pior tinha acontecido. Havia, na última noite, colidido contra os rochedos o navio de suprimento, o qual era responsável pelo abastecimento da ilhota. De praticamente tudo: do óleo combustível para o farol aos gêneros alimentícios que todos consumiam.
Tempos depois, intrigado com o sumiço de tantos navios, o continente resolveu apurar os fatos. Mandando um navio na rota dos desaparecimentos, com atenção especial ao que pudesse ser encontrado nas coordenadas geográficas do Farol. Lá chegando, as autoridades, que já haviam concluído sobre o que acontecera (pela visão dos destroços flutuantes cujo número ia aumentando enquanto se aproximavam da ilha), verificaram ainda o seguinte. Hélas!, nenhum ser humano estava vivo, a todos matara a inanição. Ah, terra sáfara, aquela...
Pois unicamente, e transformado no mais esquálido dos cães, sobrevivera Philippe-Auguste. E com alento apenas para abanar a cauda (em saudação às autoridades), cerrar os olhos e, em seguida, adentrar um trevoso país. Onde, ao que tudo indica, não verá farol nenhum como aquele.

PRESCRIÇÕES

Antologia de prosa e poesia publicada em 1994 por SOBRAMES, Regional do Ceará.
Patrocínio: UNIMED de Fortaleza.
Autores: Walter Miranda, Wellington Alves, Tarcísio Diniz, Roque Muratori, Pedro Henrique Saraiva Leão, Paulo Gurgel Carlos da Silva, Manassés Claudino Fonteles, Luciano Lira de Macedo, Luiz Gonzaga de Moura Júnior, Luiz Teixeira Neto, José Maria Bonfim de Morais, José Maria Chaves, José Rômulo Barbosa, Helio Rola, Hamilton Monteiro dos Santos, Geraldo Bezerra da Silva, Francisco Nóbrega Teixeira, Francisco Sampaio de Oliveira, Francisco das Chagas Medeiros, Flávio Leitão, Emanuel de Carvalho Melo, Elcias Camurça Júnior, Dalgimar Beserra de Menezes, Cleto Brasileiro Pontes, Chico Monteiro, Celina Corte Pinheiro, Caetano Ximenes Aragão, Antero Coelho Neto.
Editoração e Impressão: Expressão Gráfica e Editora Ltda.
Tiragem: 2.000 exemplares.
Livro com 210 páginas.

terça-feira, 20 de maio de 2008

DR. ASDRÚBAL E A MORTE

Se todo médico fosse como Dr. Asdrúbal a Morte teria bem menos o que fazer. Talvez até perdesse a razão de existir, envenenando-se a seguir com a própria saliva. Porque o bom doutor, com a dedicação de um legítimo filho de Hipócrates, de um modo tão eficaz assiste os seus pacientes que eles logo estão sarados. Para o desespero da Morte que, em cada enfrentamento perdido, vê desmilingüir o seu poder mortífero. Não sendo impensado dizer que, a persistir esse quadro adverso, dia haverá em que ela vai estar relegada aos casos declarados de iatrogenia.
Já virou cena comum Dr. Asdrúbal e a Morte se encontrarem, à beira de um leito, para travarem a titânica luta. Cujo término se dá, na maioria das vezes, com o facultativo "arrancando a vitória das garras da derrota". E, por conseguinte, com a Morte batendo em retirada sem conseguir realizar o seu terrível capricho. Nada mais nada menos, o de fazer as pessoas, no fim da vida, comerem capim pela raiz. Com suas liquidações a varejo, naturalmente - enquanto não chega o prometido Apocalipse.
Por sua atuação humanitária, o reto doutor é visto pela Morte como inimigo. Assim é que, numa vez, achando-se ela descontrolada, bateu com as luvas (não esterilizadas) no rosto do médico. Desafiando-o para um duelo, já que este agressivo gesto outra coisa significar não costuma. Bem, como Asdrúbal covarde não é, o desafio foi aceito. E dia, hora e local foram combinados, assim como quais as armas que seriam por ambos utilizadas. Com a Morte escolhendo a foice e o Dr. Asdrúbal, o bisturi. Embora pudesse de última hora mudar para a serra cirúrgica.
Naquele dia, a caminho de casa, Asdrúbal andou... a matutar: como iria vencer a difícil peleja? Pois matar o que já estava morto é algo tão difícil quanto puxar o saco de um eunuco. Além disso, a ceifadeira de vidas era uma notória trapaceira, acostumada a enganar a humanidade sofredora. Quem, por exemplo, não ouviu falar da melhora que o paciente experimenta um pouco antes de morrer? Ah, só isto já dá uma idéia de quão ardilosa ela é... Capaz de múltiplos engodos, entre os quais simplesmente o de não comparecer ao duelo marcado. Por vigarice, em seu lugar, mandando um cover; ou um coveiro, tanto faz.
Mas, tão certa da vitória a Morte estava que, conforme havia combinado, veio. Dr. Asdrúbal reparou bem que era ela: a figura esquelética (envolta num manto roxo que esvoaçava ao vento), a voz cavernosa, o odor característico de... Morte. Conhecia, sim, a figura de muitas outras lutas, digamos, terceirizadas em que a pele dele não estava em jogo. E, como se não bastasse o terror que infundia, ela se fazia acompanhar de padrinhos. Ou melhor, de madrinhas... pois eram as Três Parcas. Enquanto o desafiado estava... sozinho e, nesse exato momento, já se arrrependendo de uma certa besteira cometida.
A besteira aqui sendo dissecada: o local do duelo ser o cemitério da cidade, haver ele concordado com isso. Dando assim a vantagem de campo (santo) para a Morte.
Todavia, um pouco antes de terçar as armas, o magnânimo (os adjetivos estão aumentando!) Dr. Asdrúbal teve uma idéia magistral: envolver a Morte com uma proposta irrecusável do tipo "posso resolver este seu problema de magreza constitucional". Apostando, vê-se muito bem, na esqualidez da Morte como sendo a causa única do seu comportamento antissocial. Apesar de uma proposta dessas, ao encontrar receptividade do lado adversário, por si já caracterizar o espetáculo como uma marmelada. Mas, ora, que é que tem isso? Dr. Asdrúbal sempre foi um firme adepto das teorias de Lombroso, e quem defende estas teorias quer sempre, custe o que custar, realizar a contraprova. A qual, no caso vertente, consistiria em submeter a magra personagem a uma terapia de ganho ponderal e, em seguida, avaliar-lhe as modificações da índole para melhor. No pressuposto de que a Morte concordasse com a experiência, claro.
Então, com a palavra a mortífera senhora.
Para a surpresa geral (mas não deste narrador), a Morte topou.
Hoje, restabelecendo-se dessa "Batalha de Itararé" (da vitória do tirocínio sobre o morticínio), ela pode ser encontrada em algum lugar deste planeta. Inteiramente voltada aos prazeres da vida, como se busacasse recuperar o tempo perdido. E, se o dia é de sol, talvez esteja em algum recanto parasidíaco, em alguma praia é provável, a atrair olhares cúpidos para o seu corpo de rijas carnes - o resultado de um tratamento bem conduzido. Num estilo de vida que nada tem a ver com o passado, e daí, nesta inusitada circunstância, surgir uma grande dúvida.
Alguém questionar como é possível se as pessoas, no mundo todo, ainda continuam a morrer?
Continuam a morrer, sim. Só que agora é por uma questão de inércia, garante Asdrúbal.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

A BOMBA

Isto aqui é Drummond: "A bomba / não sabe quando, onde e porque vai explodir, mas preliba o instante inefável." É, prelibar pode. Mas que nunca dêem à bomba as coordenadas da explosão, acrescento eu. Que ela continue sendo a mesma besta de sempre, sem saber quando, onde e porquê. Mas, para tanto, é preciso não bestar o bicho-homem. Nunca apertar o botão do disparo. Só músculos, a bomba é capaz de não deixar uma xicrinha sobre pires nesta loja de louças chamada Terra.
Melhor ainda é que ela vá à Lua, assovie... mas não volte. O leitor não queira assistir na Terra a um espetáculo (bomba!), que lhe pode custar muito. As meninges assadas. E não bastassem a dor, a morte, os danos materiais, a metuenda, a ferotriste é capaz de muito estrago mais. A subversão da onomatopéia, por exemplo. Os sobreviventes da catástrofe atômica ver-se-ão afligidos, no após-bomba, pela total desorganização da onomatopéia. E isto não promete ser pouca coisa, senão ouçamos:
Por afetado no maquinismo do tempo, o relógio nos acordará a desoras com um persuasivo cocoricó. E se ainda houver galos e quintais, os primeiros subirão aos alambrados dos segundos, e tilintarão anunciando o Sol. Mas que Sol, meu Deus? Se a Terra toda estará num tenebroso inverno nuclear, com as chuvas caindo por todas as partes. Sim, as chuvas caindo fazendo frufru, para a alegria das rãs que estarão zunindo nos charcos. Pobres batráquios, não vãos ignorar as terríveis serpes ribombantes, seus inimigos naturais.
O que a bomba avariou mais? A fonte de emissão do som, o meio elástico de propagação ou o humano ouvido? Esta pergunta mugirá no ar, leitor. E, por não achar a resposta exata, um professor de Acústica afofado do juízo (pela bomba) se suicidará. Pensará na faca, seu medonho chuá, mas depois usará o revólver. Que, obviamente, fará tititi. A Semiologia Médica mudará um bocado. Porque os corações trinarão, os brônquios farão ruge-ruge, os intestinos... rataplã.
É... a bomba não tem aplomb. Basta dizer que a maléfica privilegiará os fanhos, fazendo-os subir do atual estamento que é péssimo. O rádio, a televisão, o leilão oficial pagarão qualquer preço para ter um fanho. Toda voz roufenha será premiada. Dinheiro, prestígio, limusine e o fon-fon das multidões. E o Fernando Bicudo (o que restar dele) promoverá no Teatro Municipal uma ópera só com fanhos. A Ópera Trava-Línguas.
Ah, teremos que reprogramar os ouvidos! Para o cataprus de alguém que nos chama, o clique de algo que cai na água, o zás-trás da sirene da fábrica, o psiu de um objeto que despenca, o tibungo da máquina fotográfica, o cricri do sino da matriz... E Santé! Para o murmúrio das taças que se entrechocam à nossa saúde. Já no elevador, o desbragado soltador de pum perderá para sempre o anonimato de que antes gozava. Porque, na nova ordem onomatopaica, vai cainhar feito o cão cujo rabo é pisado.
Na confusão geral do após-bomba, o bate-estaca ganhará um suave ronronar. O condicionador de ar fará baticum. E assim por diante. No final, feitas as contas (sonométricas), a poluição sonora não haverá baixado um mísero decibel. Numa prova de que o bicho-homem, antes e depois da bomba, foi e também será o mesmo martelão (quer dizer, o sujeito que só aprende à força de muito repetir). Ou, talvez, nem isso.
E quem (sobre)viver, ouvirá. À noite, o grilo preencher a tão falada insônia coletiva com o seu intérmino gluglu. Dormiremos com um ziguezague desses?

quinta-feira, 15 de maio de 2008

A ROUPA NOVA DO REI

UM CONTO REVISITADO

ERA UMA VEZ um rei muito vaidoso de nome Nando. Certa manhã, nessas manhãs cheias de luz, ele recebeu a visita de dois alfaiates que, após as devidas apresentações, lhe prometeram fazer um novo traje real. "Como nunca se tinha visto antes", enfatizaram. Precisariam apenas de um local no palácio, tempo suficiente e, claro, algum financiamento. E, para que a empreitada não sofresse dificuldades que a pusessem no rol das obras de Santa Engrácia, por conta disso, é que o rei baixou uma resolução. Em se tratando da feitura do traje real, que Mizélia, a ministra da Fazenda, não observasse limite nos gastos.
Instalados no palácio real, os dois alfaiates - em verdade, dois espertalhões - passaram ao exercício de uma grande trapaça. Simulando que estavam a trabalhar, com agulhas e linhas imaginárias, longas horas eles ficavam a coser um tecido idem. E, quem entrasse no recinto, não podia ignorar que havia ali uma obra-prima em andamento. Porque, assim, estaria a passar um recibo de estúpido. Os dois espertalhões, antes de qualquer coisa, haviam divulgado o seguinte: o traje real, em sua beleza jamais vista, não se revelaria aos olhos daquele que fosse curto da inteligência.
Muitos meses após, e com muito dinheiro já embolsado, os dois velhacos deram por terminada a obra. A tempo de o rei Nando poder usá-la na Descida da Rampa, a festa máxima do reinado. Quando o povo, em sua melhor roupa, apinhava-se nas ruas para saudá-lo (e ver também as autoridades que não estavam sendo "fritadas"). A Claudio, secretário do rei, é que coube receber e dar a derradeira palavra sobre o traje real. Com Claudio da Capetinga, como era do feitio, aproveitando a oportunidade para fazer em cima dos dois falsos alfaiates uma caprichada rasgação de seda. Embora nem deste nem de qualquer outro material fosse feito o traje.
Levado o traje à sala de paramentação, a surpresa de Nando. "Roera o rato a roupa do rei?" - eis a frase com que ele intimamente se perguntou. Sim, porque não estava vendo nada daquilo que lhe era mostrado como traje. Ultimamente, é verdade, vinha a sua inteligência despencando... junto com a popularidade. Mas, daí a admitir que ele, um poço de sabedoria, houvesse de todo secado... Ah, não, ainda existia espaço para muita corda. Como a que lhe deu o secretário, com a clara intenção de lhe tirar dos titubeios. Ao citar, com a ênfase que a ocasião requeria, que "o essencial é invisível para os olhos".
Com alguma dificuldade, para não confundir a ceroula com o manto, rei Nando vestiu-se.
Fazia um frio medonho naquele dia. De modo especial para Nando, que só não tiritava ainda mais por se encontrar cercado de áulicos, seguranças e convidados. Dentre estes, uma dupla sertaneja que, por qualquer dá cá aquele chapéu de palha, punha-se a cantar o "Entre capas e pejos", a trilha musical do reinado. Ora, com tanto aparato assim, a Nando restava não ser um "pouca roupa" no plano psicológico. Desconforto térmico à parte, ele tinha de dar início à Descida da Rampa. Para ir ao encontro de sua gente que, já sufocada pelo cotidiano, apertava-se também nas ruas para vê-lo.
O cortejo pôs-se em andamento. A expectativa geral era de que, ao fim do desfile, Nando subisse no palanque da praça para a fala real. Um discurso "pró-lixo" que, invariavelmente, começava com um "maranis e marajás" e o resto era besteirol puro.
Nisso, o que aconteceu foi ouvir-se um "oh" coletivo - o povo tomado de espanto! Seria verdade, verdade o que todos estavam a ver? O rei pelado, pelado como se estivesse a gravar uma externa de filme pornô...
Havia crianças presentes, muitas. Mas os adultos, a se indignarem com a situação, preferiram manter um silêncio respeitoso. Com o espírito de que "quem já viu não estranha, quem nunca viu não sabe o que é". E porque, na presença de um rei, é preciso de prudência, prudência e prudência (para não cometer algum crime de lesa-majestade). Pois bem, mas eu estava a falar de que se fazia um silêncio respeitoso no meio do poviléu. So que esse silêncio, instantes após, aconteceu de ser inapelavelmente quebrado por um "pentelhinho". (Ô nome apropriado para a criança desta história!)
Um "pentelhinho" que, não querendo ser conivente com a farsa em seu quesito evolução, todo gasguita berrou:
- Mãe, o rei tem aquilo roxo!

No que escutou, rei Nando inicialmente se espantou com a exatidão do comentário. Adiante, já refeito do impacto sentido, e por achar que até granjearia respeito com a divulgação, ele se apropriou da expressão escutada. E, em sua peroração à massa, declarou ter realmente "aquilo roxo". Pouco atinando que tudo não passava de um simples arroxeamento pelo frio nos "anexos da estrovenga", eis toda a verdade.

sábado, 10 de maio de 2008

COM A CARA E A COVARDIA

Lourenço era o tipo do sujeito frouxo. Desses de levar desaforo para a casa porque, na "hora R" (de reagir), já se via... Lourenço se punha atremer que nem palma de coqueiro-babão. E... pernas para que vos quero, não está mais aí quem falou, Deus é grande mas o mato é maior, enquanto eu correr meu pai tem filho, para os mortos sepultura e para os vivos... escapula! Boi é pouco, Lourenço dava logo a boiada inteira para não entrar em briga, discussão ou entrevero (com o magarefe do bairro, então avaliem).
Poltronaria à parte, havia um projeto por que Lourenço se babava de um modo torrencial. Ir, pelo menos uma vez, ao Forró do Arnaldo que existia e dava função nas proximidades de sua residência. Principalmente quando, ao portão de casa, ele via o desfilar do mulherio a caminho do forró. Cada mulher de deixar Lourenço entre embevecido e assanhado. Numa de imaginar-se em plena sessão bate-coxa com uma delas, depois com outra e outra, botando para fora (epa!) a própria timidez.
Mas... cadê coragem para adentrar aqueles domínios de cabra-macho? Sim, porque outra coisa não era o Forró do Arnaldo. A dar crédito a umas tantas histórias que circulavam pelo bairro, e que causavam frio na espinha de quem as ouvia, era bem perigoso o arrasta-pé. Havia acontecidos em profusão que patenteavam a macheza de seus freqüentadores - uns homens capazes de, a uma minúscula provocação, logo estripar quem na frente estivesse! De fato, assim não dava para Lourenço, o Frouxo. Que sentia contorção intestinal só ao pensar em tal ambiente metido.
Ah, não estando sob forte coação, naquele local ele jamais poria os pés!... Coragem não é dor-de-dente que dá em todo mundo!
Um dia, porém, Lourenço se viu obrigado a fazer das tripas (epa!) coração. Por haver aceitado um convite da parte de Ermelinda - mulher de fechar o shopping center - para ir ter com ela, sabem onde? No Forró do Arnaldo, acreditem, e não podendo faltar! Pois Ermelinda era a personagem mais habitual em seus devaneios de rapaz solito. Mas que agora, graças a Deus, começaria a perder a diafanidade, para se tornar um ente de carne e osso (mais o primeiro item) a entrar em sua vida. Desde que ele, claro, não perdesse bestamente a oportunidade ali surgida.
Convém dizer que Lourenço, instantes atrás, ao passar Ermelinda perto dele, deixara escapar uma espécie de assovio. Coisa de quem sofre de dispnéia suspirosa. Nada a ver, portanto, com algum assanhamento que estivesse a apresentar, embora a rapariga (no sentido bom, lusitano da palavra) lá isto bem merecesse. Só que, havendo interpretado o assovio por galanteio, a boazuda da Ermelinda se achegara para um papo inicial, vindo daí o convite. E para vir depois o xodó, o amor, a paixão, bastaria Lourenço não fraquejar.
Forró do Arnaldo, às nove horas da noite, como ficou combinado. Com o coração dele, a partir daquele "até logo", indo do peito para a boca, e voltando, o sangue cedendo lugar à adrenalina... Mas, como ainda havia hora e meia pela frente, que fazer? Que fazer? Bem, tomar algumas cervejas no boteco em frente ao forró. Assim, matava-se o tempo, amenizava-se a ansiedade e, nesse entrementes, ainda podia se submeter a uma anteprova de cabra-machismo (pois era no boteco onde muitos costumavam "fazer a base" para entrar no forró). De que, se ele saísse com louvor, ficaria cheio de moral para enfrentar o arrasta-pé.
Feito! Ei-lo, então, a pagar a conta no boteco. A seguir, meio sobre o intrépido, ei-lo a atravessar a rua para entrar no Forró do Arnaldo. Onde Ermelinda toda amorosa, gentil e sensual, estaria a esperar por ele, certamente. Enquanto Lourenço, prelibador é o cão, já a sentir que a pressão ia dar, que a voz não ia embargar, que as pernas não iam tremer... Só pensamento positivo, afinal, que nada de ruim, desagradável ou funesto lhe poderia acontecer. Estavam contidos todos os medos, pânicos e fobias. Tudo por amor à Ermelinda.
Agora, ei-lo a receber na palma da mão a inesquecível carimbada. Como quitação aos cem cruzeiros desembolsados para entrar no Forró do Arnaldo. E, no momento imediato, ei-lo já a exibir o insólito ingresso (que vem a ser a própria mão carimbada) ao crioulão porteiro... Quando este, de um modo absolutamente inoportuno para quem a todo transe busca o autocontrole, crava-lhe a terrível pergunta: "Tem faca?" E, indiferente a um apavorado "n-n-não" que é o que sai da boca de Lourenço, nisto não fica o crioulão. A fim de que Lourenço use à cintura, enquanto durar a festa, vai, oferece-lhe um exemplar (dentre os muitos que estava a distribuir) do chamado objeto cortante que tem cabo e lâmina. Com esta recomendação final: "Devolve na saída."
Mas que saída? Se não aconteceu ali, como não acontecerá jamais, a entrada de Lourenço no Forró do Arnaldo. Por mais que lá vicejem as ermelindas.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

MARCHA À RÉ

1
Com o primeiro automóvel fabricado no Brasil surgiu também a imagem ideal para descrever o desempenho da nossa economia.
Vamos lá.
É que coube a JK, no fim dos anos 50, como pai da nascente indústria automobilística, o mérito de engrenar a primeira. E a Jânio (sob os seus protestos de que o veículo não era movido a álcool), a segunda marcha. Quando o veículo, então, tomado de enguiços ocultos, deu pinotes, estancou.
Jango pegou o volante, tendo problemas com a caixa de câmbio. E bastou dar uma guinada à esquerda para fazer o veículo tombar.
A seguir, fardados motoristas se revezaram na direção do veículo. Engrenando a terceira, a quarta... O carro era o "milagre brasileiro". E nós obrigados éramos a usar o cinto de segurança nacional. Sei não, mas como a conjuntura internacional na época se mostrava favorável, sou hoje levado a pensar que o carro estava "na banguela". Ou, então, simplesmente a reboque da economia norte-americana.
Com Figueiredo a farsa acabou. Gostar ou não gostar do cheiro dos cavalos foi a questão do seu tempo.
Nos anos 80, o automóvel só andou com o freio de mão puxado.
E veio a era Collor, com o carro enfrentando uma crise de identidade: provar que não era carroça. Aí, tome marcha à ré nele!
Teríamos recuado muito, não fora o roubo brabo de combustível.
Mas, o fato é que chegamos. De volta ao passado. O homem (ao volante) é Itamar, a mulher pode não existir e o carro é... o fusca.
Cada economia tem o Deus ex machina que merece.
2
O Brasil não tem um animal-símbolo. Como os Estados Unidos que são lembrados pela águia que, a nosso ver, não passa de um símbolo rapinado da antiga Roma. Como também a Rússia, a Grã-Bretanha e a Austrália, importantes nações que, de modo informal, são representadas pelo urso, leão e canguru, respectivamente.
Mesmo a Sereníssima República de San Marino já tem o seu símbolo oriundo do reino animal: a ameba. E a África do Sul acaba de se fixar na zebra, um animal branco de listras pretas (ou vice-versa, conforme o CNA), símbolo mais que perfeito para o país do apartheid!
O Brasil não se chama Peru para estar, por motivos óbvios, dispensado da escolha do seu animal-símbolo. Nem se chama Serra Leoa. Nem República dos Camarões. Por isso, não pode desprezar essa estratégia de marketing, usada há muito tempo por empresas, partidos políticos e times de futebol.
Urge, assim, escolhermos o animal que nos sirva de referencial no chamado concerto das nações. Com todo o merecimento, já que somos o berço do jogo do bicho e que é aqui onde o horóscopo manda ver.
Então, declaremos aberta a temporada de caça ao animal que vai simbolizar o país. Com a esperança de que ele, devidamente subjugado, aceite o espinhoso cargo. Pois, conforme o caso, podemos ameaçá-lo com a jaula, o empalhamento e os nossos estômagos.
Sugestões já estão sendo recebidas. Dentre as quais, a de um nome que, numa seleção ampla e irrestrita, deve se mostrar imbatível.
O caranguejo. Que, igual ao Brasil, tem o aferrado costume de andar para trás.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

ESMERALDAS

Antologia de prosa e poesia publicada em 1993 por SOBRAMES, Regional do Ceará.
Patrocínio: UNIMED de Fortaleza.
Autores: Antero Coelho Neto, Caetano Ximenes Aragão, Celina Corte Pinheiro, Cleto Brasileiro Pontes, Chico Monteiro, Claudio Gladiston Lima da Silva, Dalgimar Beserra de Menezes, Elcias Camurça Filho, Emanuel Carvalho Melo, Francisco Nóbrega Teixeira, Flávio Leitão, Geraldo Bezerra da Silva, Hamilton Monteiro dos Santos, Helvécio Neves Feitosa, José Maria Bonfim, José Rômulo Barbosa, Luiz Gonzaga de Moura Júnior, Luiz Teixeira Neto, Manassés Claudino Fonteles, Marcelo Gurgel Carlos da Silva, Paulo Gurgel Carlos da Silva, Pedro Henrique Saraiva Leão, Roque Muratori, Sinara Targes Perfeito, Tarcísio Diniz e Walter Miranda.
Editoração e Impressão: Expressão Gráfica e Editora Ltda.
Tiragem: 2.000 exemplares.
Livro com 178 páginas.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

DR. CARTA PÁCIO E O LOTEAMENTO HUMANO

Encontrava-me no diário jardinar, entre muitas flexões e reflexões, quando o carteiro chegou e o meu nome gritou com uma carta na mão. Ante a surpresa tão rude, não sei como pude chegar ao portão. Mas, cheguei e ... Ah, como eu já conheço aquela letrinha gótica! Pois lendo o envelope bonito, em seu sobrescrito eu reconheci: Dr. Carta Pácio, o missivista-filósofo da mirabolância!
Eis na íntegra a sua última carta:

"Prezado senhor,

O assunto ao qual chamo a sua atenção é da mais alta importância, uma vez que se relaciona com algo que nos é muito precioso: o corpo. Alicerçado em que consultei, à exaustão, os compêndios de anatomia de minha privada biblioteca (privada enquanto adjetivo, bem entendido). E que, após a tal consulta, acabo de chegar a uma irrefutável constatação. O homem tem - pasme o senhor! - o domínio útil do seu corpo, mas em verdade não é dele proprietário. Quer dizer, ele ganhou o corpo do qual deve tirar proveito (antes de o dar aos vermes); no entanto, ele chegou tarde.
Isto porque os homens da ciência - anatomistas, na maioria - estabeleceram o loteamento da carcaça humana. Nada deixando a que não se reportassem através de um de - partícula que confere relação de posse. A começar por Adão, não propriamente um anatomista (apenas um nomeador dos seres vivos em geral). Quando deu o nome a este belo pomo que o senhor carrega no pescoço, integrando os seus caracteres sexuais masculinos. O que é, aliás, aceitável, Adão, o super Adão, foi o pai primordial. Em nenhuma hipótese, porém, eu coonesto o que aconteceu depois.
Por exemplo, um guerreiro grego, naquilo que ele tinha de mais frágil, emprestar o nome ao mais robusto tendão do corpo humano. O guerreiro Aquiles, e chega a ser irônico o fato. Como também não coonesto o loteamento do homem pelos anatomistas de todos os tempos e lugares, só porque o dissecaram com o fim de estudo. E aproveito aqui para nobilitar os precursores da ciência que trata da forma e da estrutura do ser humano. Demócrito, Anaxágoras, Alcméon, Empédocles... mas esses homens eram uns filósofos!
No corpo humano não há ligamento, esfíncter, aponeurose, válvula, prega e forame que não pertença a algum anatomista do passado. São exemplos do que eu digo o gânglio de Gasser (neurogânglio sensitivo do trigêmio), as pregas de Kerckring (da mucosa do intestino delgado) e de Houston (da mucosa do reto), o coxim de Bichat (a massa adiposa da bochecha), a cisterna de Pecquet (dilatação da extremidade inferior do ducto linfático), a válvula de Braune (na junção do esôfago com o estômago), a aponeurose de Dupuytren (fáscia que reveste os músculos da palma da mão), o forame de Vesalius (orifício do osso esfenóide), o ducto de Stenon (da glândula salivar parótida)...
A relação é por dizer interminável. Máxime porque, numa certa fase da retalhação anatômica, passaram a nomear os ângulos. O que Broca, Camper, Alsberg, Daubenton, Mulder, Ranke e tantos outros fizeram ao crânio. Os espaços. O que Traube, com igual espírito, fez ao lugar ocupado pelo estômago... Sei não, mas fica a parecer com outros loteamentos por aí, que não primam exatamente pela honestidade. O espaço de Donders, que fica entre o dorso da língua e o céu da boca, quem é que cai nessa? Só o incauto - e com alguma salivação, acrescento.
E não parou aí a volúpia loteadora. Com o advento da microscopia óptica, os histologistas e os citologistas entraram na jogada. E tome aparecer uma alça de Henle no rim, uma célula de Clara no pulmão, outra de Küpffer no fígado. Até mesmo ilhotas, como as de Langerhans no pâncreas. (Ah, o ideal de possuir uma ilha que a poucos é dado concretizar!) Também os embriologistas. E tampouco sei onde tudo isso vai parar. Agora, principalmente, que a microscopia eletrônica mostra tudo em nível subcelular. Está aí o aparelho de Golgi que não me deixa mentir.
Ainda bem que não é pela enfiteuse. Neste regime, além de pagar foro anual a essa turma toda, seríamos obrigados a conservar órgãos, aparelhos e sistemas... sem qualquer deterioração. E isso, meu prezado senhor, simplesmente não o fazemos.
Aguardando uma resposta abonadora, renovo-me seu, sinceramente

Dr. Carta Pácio."

Que desatualizados cartapácios não deve ter lido o Dr! Para ignorar que a nomenclatura anatômica de há muito aboliu os epônimos. Pois estes, além de nada significarem morfológica e funcionalmente, por vezes não passavam de uma injusta homenagem histórica.